A Guerra
dos Browsers
A Netscape nunca teve
tempo para ser complacente ou para permitir um mínimo (humano) de descanso ao batalhão
de jovens programadores que asseguraram o desenvolvimento da sua linha de produtos (alguns
dos quais, naturalmente, se tornaram milionários no processo).
Desde o dia da criação da empresa que
havia uma sombra no horizonte: uma multinacional chamada Microsoft. Se a Netscape desse certo, o mais provável era a Microsoft
perceber definitivamente o potencial da Internet e começar a desenvolver as suas
próprias soluções. Para a eventualidade de isso acontecer, era essencial não parar
para descansar, avançar ao ritmo mais alucinante possível e marcar esse ritmo, de modo a
ficar sempre em frente.
O problema principal para a Netscape foi que a
empresa teve realmente demasiado sucesso e Bill Gates foi capaz de virar a sua empresa
para a Internet, investindo centenas de milhões de dólares na aposta. Os gestores da
Microsoft acabaram por entender que a Internet iria condicionar todo o futuro das
Tecnologias de Informação e que a Microsoft teria de se adaptar ou enfrentar a
possibilidade insuportável de vir a ser uma empresa secundária no futuro. Em 1994 houve
dúvidas inocentes sobre a capacidade da Microsoft de se adaptar, em primeiro lugar; e de
dominar o panorama do desenvolvimento de soluções para a Internet, em segundo lugar.
As dúvidas não duraram muitos meses. A
empresa de Redmond tinha, como tem, uma disponibilidade financeira única no mundo e usou-a como
só ela sabe. Por outro lado, ao longo dos anos, a Microsoft havia desenvolvido uma
técnica única para deglutir adversários, técnica essa que conseguiu usar com máximo
efeito contra a Netscape: "Embrace and Extend in a market framework of FUD".
"Embrace" quer dizer conseguir oferecer
um produto com todas as caracetrísticas do seu principal rival no mercado.
"Extend" quer dizer descobrir as características mais desejadas pelo público
no produto rival e oferecer essas características antes deles. "FUD" quer dizer
"Fear, Uncertainty and Doubt" (medo, incerteza e dúvida). Utilizando esta
simples regra, e investido incontáveis milhões de dólares para assegurar o sucesso,
dentro de intervalos de tempo "adequados", a Microsoft tem conseguido
apropriar-se de todos os mercados desejados, à medida que os vai identificando. O último
caso é o da troca de mensagens entre os utilizadores da Internet.
Em 1999, depois de uma
batalha hercúlea, a Netscape desistiu e, para evitar que o valor da empresa baixasse
ainda mais e permitir que o software desenvolvido tivesse um futuro, aceitou ser adquirida
pela America Online, talvez a única
grande empresa na área das novas Tecnologias de Informação com real capacidade para
competir com a Microsoft. Neste momento, em todo o mundo, o browser mais utilizado é o da
Microsoft (o Navigator está hoje reduzido a cerca de 30% de quota de mercado, menos ainda
em Portugal).
Em termos práticos,
para quem faz web sites, a guerra pelo controlo do mercado significou que os standards
foram esquecidos pelos litigantes durante muito tempo (agora que as coisas acalmaram, o
panorama parece ser diferente) e os autores de web sites enfrentaram sérias dificuldades
na adopção das características a implementar nos seus sites, por receio de
incompatibilidades entre os browsers dos potenciais utilizadores. Este site, por exemplo,
simplesmente não funciona no Navigator (foi concebido exclusivamente para as
características específicas do Internet Explorer). Sempre que se fizer um web site, é
preciso analisar previamente o público a atingir e adequar a codificação às suas
limitações (por exemplo, se a maior parte das pessoas tiverem uma versão atrasada do
Nestcape Navigator, será necessário adequar a codificação a essa limitação).
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