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Natureza da Web, Parte IV: O Fim dos "Livros"

Living in a Paperless WorldUma ilustração inequívoca da inadequação dos livros aos propósitos a que foram forçados a servir é a enciclopédia. Por exemplo, uma enciclopédia com mais de 1.500 páginas, em cerca de duas dezenas de volumes.
          Consultar uma enciclopédia por motivos académicos, digamos -- para suportar um trabalho de investigação, por exemplo -- significa pegar num tema, digamos Camões, encontrar referências ao século das descobertas, a Moçambique, Goa e Macau e prosseguir a exploração destes temas (as "referências") nos volumes respectivos, onde novas pistas surgirão, obrigando a sair da mesa e ir à prateleira em busca dos outros volumes. A perspectiva é a da perda de tempo em explorações que acabam por se revelar infrutíferas, a frustação de uma demorada pesquisa manual totalmente obsoleta e a falta de conforto físico de todo o processo. Até os textos a citar têm se ser copiados por leitura e escrita!
          Finalmente, depois se gastar uma fortuna numa enciclopédia, que pretende sempre ser algo como um repositório do fundamental do conhecimento humano, o que se tem é uma obra fatalmente desactualizada. Esta situação é tentativamente compensada com a publicação de volumes de actualização, actualização essa que, no acto de leitura do original, não se consegue adivinhar e tem sempre de ser assumida. Os volumes de actualizações costumam ser anuais. Após alguns anos, esta situação começa a ser simplesmente ridícula.
         O "livro" não é, nunca foi, o suporte ideal para uma enciclopédia. Era simplesmente, o que havia, até há pouco tempo. Quando enciclopédias como a Britannica começaram a ser disponibilizadas em CD-ROM, as vendas do produto neste suporte rapidamente ultrapassaram as vendas em papel. E hoje, naturalmente, a Britannica está finalmente no suporte onde todas as principais enciclopédias acabarão por estar: na Web.
         Há três razões principais para ainda se comprar uma enciclopédia em papel: (a) em desespero de causa, por não haver opções; (b) por uma questão de decoração de interiores ou pedantismo; (c) por uma questão de gosto ou nostalgia.

Neste momento, o conhecimento humano está a ser massivamente transferido para suportes electrónicos ligados à Internet. E novos "textos" estão já a ser concebidos para este novo meio. E, na expressão "novo meio", está a questão fulcral.
        A dificuldade humana para lidar com a mudança força-o a aplicar os conceitos do passado a uma nova realidade, de modo a conseguir uma ponte entre o passado e o futuro, até que a nova realidade se entranhe. Por isso, durante alguns anos, os automóveis foram "carruagens sem cavalos". Por isso, os primeiros anúncios de televisão eram iguais aos anúncios que passavam na rádio, mais umas imagens ilustrativas. Por isso, esse disparate completo de se chamar "página" a este site e/ou ao texto neste ecrã.
        A forma de escrever que nos é "natural", por uma questão de centenas de anos de tradição e preconceitos culturais, não é a forma de escrever adequada a este novo meio. A forma de apresentar e mesmo discutir um argumento são diferentes. A forma de apresentar e desenvolver assuntos, são diferentes. Tudo o que aprendemos neste âmbito, e que por uma questão de arreigadíssimo preconceito cultural é-nos visceralmente "natural", tem de ser posto em causa.

O hipertexto, sobretudo como implementado através da Web é, como o "livro" impresso também foi séculos antes, uma tecnologia disruptiva -- uma tecnologia que implica mudanças a nível da mudança de paradigma cultural. E nós estamos precisamente na alvorada de um novo paradigma.

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