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Sobre a Internet, Ciberpunks



Strange Days, 1995

Vivemos talvez dias estranhos... dias em que “festas de música electrónica duram noites e dias inteiros, semanas até...”; em que, mais do que música, uma juventude aparentemente alienada “curte” paisagens sonoras inovadoras e desafiadoras, controladas por uma espécie de sacerdote que dá pelo nome de DJ (noutros tempos, “disc-jockey”); em que a experiência da vida parece passar obrigatoriamente pelo consumo de drogas cada vez mais artificiais; em que as paredes urbanas são marcadas por graffitis que reflectem uma contemporaneidade perturbadora; em que as crianças parecem já nascer sob o fascínio irresistível dos computadores e com a capacidade de os utilizar com proficuidade; em que milhões de seres humanos parecem viver dependentes de imagens transmitidas pela televisão e comunicações mantidas através da Internet; em que os únicos jogos verdadeiramente estimulantes são electrónicos e os maiores desafios intelectuais dignos de registo junto de diversas tribos são os que passam pela circunvenção das seguranças de sistemas informáticos...

versão BD oficial do filme (Marvel Comics, 1982)

São estes, reflexos de uma realidade global que define a nossa civilização ou pelo menos uma parte fundamental dela? Será a Internet, mais do que uma forma eficiente de comunicação, de publicação, de mercado, uma criação inevitável de valores civilizacionais que nos escapam? Há uma lógica, uma ligação, uma autêntica coerência em todas estas manifestações?

Mais do que o já pacífico termo “cibernauta” (ou “internauta”), que se tem vindo a popularizar e que aliás usámos para o título deste projecto, o termo original para referir os “habitantes” do “ciberespaço”, era nos princípios da década de 80 – 10 anos antes da Web ter feito explodir a popularidade da Internet e a ter colocado no mainstream – “ciberpunk”. “Punk” não na acepção infeliz de Dirty Harry (“Do you want to make my day, punk?”), mas no espírito do estilo, atitude e música “futuristas” que marcou um segmento relevante da juventude dos últimos anos da década de 70.
       É através desta ainda hoje intrigante personagem do ciberpunk, criada por alguns escritores de ficção-científica duas décadas atrás, que se pode tentar de um modo sistemático e coerente fazer alguma luz sobre uma realidade que a maior parte de nós pressente existir mas que nos parece escapar...

Para saber mais... Se estiver interessado em explorar este tema fascinante, tem uma boa opção em português – curiosamente, num livro em papel, em edição de autor! Cyberpunk: Ficção e Contemporaneidade (Herlander Elias, 1999) é um recomendável esforço para “catalogar o incatalogável movimento ciberpunk, dando de facto consistência” a um relevante imaginário dos nossos tempos.

 
 
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