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Sobre a Internet, Microsoft






o lugar da Microsoft...O lugar da N.B.: ligação a outro web site Microsoft, uma empresa fundada há pouco mais de 20 anos por N.B.: abertura numa janela do seu programa de correio-e um grupo de jovens que provam que o aspecto não é tudo na vida, e que se dedica sobretudo a desenvolver e comercializar aplicações informáticas com um exército de mais de 30.000 trabalhadores espalhados por todo o mundo, muitos deles milionários e alguns multi-milionários, parece ser solidamente no topo do mundo...
      É a empresa mais valiosa de todos os tempos e de todos os países, com resultados trimestrais e capitalização em bolsa em permanente crescimento; N.B.: ligação a outro web site a mais temida e respeitada; N.B.: ligação a outro web site a mais acompanhada e observada; e forçosamente, N.B.: ligação a outro web site a mais odiada e desprezada (se a ligação não funcionar, veja no N.B.: ligação a outro web site Yahoo).

A história do seu sucesso ímpar é uma saga complexa e uma lição eterna para qualquer aspirante a empresário. Se sabe inglês, Bill Gates tem todo o prazer em lhe contar a N.B.: ligação a outro web site história oficial da empresa que criou e conduziu ao sucesso (se a ligação não funcionar, aceda à N.B.: ligação a outro web site biografia de Gates no seu N.B.: ligação a outro web site sítio pessoal e procure um link para Microsoft Timeline). Para resumir tudo, ao longo de mais de 20 anos, as equipas de gestão da Microsoft, lideradas por um homem aguerrido, brilhante e inspirado, tiveram a coragem de correr todos os riscos certos nos momentos certos e de vencer (quase) todas as apostas e desafios importantes que se lhes colocaram. O que levou a empresa, por excesso de sucesso, a tornar-se no monopólio mais visível dos Estados Unidos e a ver-se no lado errado de uma N.B.: ligação a outro web site épica batalha judicial anti-monopolista lançada pelo aparelho judicial norte-americano.

ligação à página dedicada à Microsoft do site www.jokewallpaper.com (used with permission)


No princípio da década de 80, a IBM encomendou a uma pequena empresa de gente jovem, o sistema operativo (o programa básico para que um computador possa funcionar e em cima do qual correm todos os outros) para uma nova linha de computadores – a que chamou PCs, ou computadores pessoais – com que esperava satisfazer um novo segmento de mercado cujos potencial e viabilidade pareciam, no mínimo discutíveis, mas que não podia ser mais ignorado. A pequena, quase amadora e pouco ameaçadora empresa que recebeu a encomenda era a Microsoft, que entregou um sistema operativo chamado MS-DOS, de que conseguiu reter os direitos para licenciar a outros.

Graças à confiança que a marca IBM inspirava; à relativa facilidade de utilização e preço acessível das máquinas; e a programas como o Lotus 1•2•3, que facilitavam tarefas de gestão fundamentais – os computadores pessoais começaram a vender-se de uma forma extraordinária. E cada um deles ia para o mercado com o sistema operativo da Microsoft, que ia evoluindo para permitir aos utilizadores tirar o melhor partido possível das máquinas novas e mais poderosas que iam sendo lançadas no mercado.

A empresa também desenvolvia outro tipo de aplicações, como processadores de texto (Word), folhas de cálculo electrónica (Multiplan), ou jogos, mas a sua produção destes produtos não era relevante; e possuia ainda um conjunto de soluções de desenvolvimento de software (programas usados para criar outros programas), mas também não dominava esse mercado. Já dentro da década de 80, Bill Gates intuiu que o futuro dos PCs tinha de passar por um ambiente gráfico, como o que a Apple tinha nos seus Macs e decidiu investir a sério para criar algo semelhante para os PCs: chamou-lhe “Windows”. Durante alguns anos, só a Microsoft acreditou na coisa, o que não era difícil, porque era um horror. No entanto, se há alguma classificação adequada para a Microsoft, é "persistência". Hoje, já toda a gente percebeu que a Microsoft não sabe desistir e que tem o dinheiro suficiente para investir infinitamente em tudo o que acredita, até acertar com a solução. Mas há 10 anos, não se podia adivinhar...
       No princípio da década de 90, a empresa conseguiu lançar uma versão do Windows (a versão 3.1) que realmente funcionava e estava mais ou menos à altura da promessa. Foi um sucesso fabuloso. E ninguém estava preparado para o aproveitar senão a própria Microsoft. O mercado dos sistemas operativos já era totalmente seu. Com um avanço de anos no desenvolvimento de software preparado para o Windows, o mercado das aplicações de escritório foi totalmente conquistado, bem como o mercado das linguagens de programação (os programas para fazer outros programas).

No mercado informático, a partir do momento em que uma empresa atinge uma posição de força num dado segmento, os potenciais concorrentes enfrentam, muitas vezes, um obstáculo inultrapassável. O caso óbvio é o do sistema operativo: a maior parte dos consumidores só estão interessados em comprar um sistema operativo se souberem que há um leque variado de aplicações para ele. E depois, a partir do momento em que os fabricantes de computadores, para facilitar a vida aos utilizadores, vendem as máquinas já com o sistema operativo instalado, qualquer pretensão de gastar mais dinheiro em comprar uma alternativa vai pela pia. Este princípio, com umas nuances, também é válido no caso das aplicações de escritório electrónico: quando toda a gente se habitua a usar determinados programas e a distribuir ficheiros no formato desses determinados programas, torna-se também muito difícil e caro (portanto irracional), sobretudo dados os custos associados de formação, mudar...

Criou-se assim, por mérito da Microsoft e demérito da sua concorrência, uma situação impossível de aceitar, em que um mercado inteiro é totalmente refém da oferta de uma empresa, porque as barreiras à entrada são incomensuráveis. E obviamente, agora que estava no topo do mundo, a Microsoft não ia deixar perigar a sua posição dominante, usando toda a atenção e todos os milhões necessários para esmagar qualquer hipótese de se ver reduzida a “mais uma empresa”. Há um pensamento que Bill Gates tem gravado a ferro no seu subconsciente: é que o lugar que a sua empresa ocupa hoje seria em princípio da IBM, e só não é porque a IBM não foi capaz de perceber o futuro e foi encomendar o sistema operativo dos PCs à Microsoft! Bill Gates e os seus lugares tenentes têm a obsessão de que a Microsoft nunca deixará de perceber qualquer ameaça à sua posição: à Microsoft nenhuma empresa daria o mesmo tratamento que a Microsoft havia dado à IBM.

Quando em Agosto de 1995, no mesmo mês em que a Microsoft lançava com pompa e circunstância o Windows 95, a IPO (oferta pública de venda inicial) da Netscape – uma empresa que ainda não havia feito um tostão e cujo modelo de negócio de baseava na distribuição gratuita de um programa para consultar conteúdos na Web – atingiu um sucesso em bolsa superior ao da própria Microsoft, 9 anos antes, soaram todos os alarmes em Redmond. O grande medo da Microsoft era que o browser da Netscape, que corria não só no Windows como em outros sistemas operativos pudesse, num futuro mais ou menos distante, se estivesse espalhado por toda a parte, tal como o próprio Windows, tornar-se ele próprio uma plataforma para desenvolvimento de aplicações, substituindo-se eventualmente ao próprio Windows. Hipótese remota, mas tal como Andy Grove, da Intel, diz only the paranoid survive.
       E portanto, só havia uma solução preventiva: eliminar, destruir, erradicar a Netscape.

E foi assim que desde 1995, a fúria monopolista da Microsoft se abateu sobre a recém-criada empresa californiana, numa batalha em que o resultado só poderia ser um. A empresa usou com a Netscape, numa forma já refinadíssima pelos anos, a sua famosa técnica do Embrace and Extend: primeiro fazer uma aplicação que inclua tudo o que as concorrentes têm e insistir até o conseguir; segundo, avaliar as necessidades do mercado que ainda não estão satisfeitas pelas aplicações dos concorrentes e inclui-las na da Microsoft. Nunca desistir, custasse o que custasse. E já agora, incluir a aplicação (no caso o browser Internet Explorer) no próprio sistema operativo, omnipresente, da empresa para garantir que não haja nenhuma tentação racional dos utilizadores para experimentar as alternativas. Durou alguns anos, mas a Netscape já não existe: é uma divisão de outra empresa, a America Online ( sítio brasileiro).

Quando uma empresa ocupa uma posição dominante num mercado, tem de ter muito cuidado, pelo menos para tentar não parecer um tubarão – ninguém gosta de tubarões, nem do que eles são capazes de fazer às pessoas. Ora, a verdade é que os seres humanos são o que são, e ao fim de 20 anos de sucessos acumulados, é muito difícil uma pessoa manter-se humilde... o mais normal é darmo-nos ares de superioridade e mostrar-mo-nos arrogante. E foi isso que inevitavelmente acabou por acontecer com a Microsoft e com as pessoas que a dirigem, a começar no seu famoso fundador. Todos carregamos a nossa humanidade e isso às vezes torna-se demasiado evidente!

E foi assim que a Microsoft acabou por se ver com uma acção anti-monopolista em cima, de consequências imprevisíveis (embora o mais provável seja de longe que a equipa de gestão da multinacional norte-americana, com o génio do costume, consiga arranjar forma de dar a volta por cima). Independentemente do resultado final da acção, vale a pena ler as conclusões preliminares do juiz que analisou o caso, numa acção judicial (N.B.: ligação a outro web site this thing...) desprezada pela Microsoft, como irrelevante e infundamentada:

       

A pior consequência [para o mercado] é a mensagem [insidiosa] que as acções da Microsoft transmitem a qualquer empresa com potencial para inovar na indústria da informática. Através da sua conduta para com a Netscape, a IBM, a Compaq, a Intel e outras, a Microsoft demonstrou que usará o seu prodigioso poder sobre o mercado e os seus lucros imensos, para prejudicar qualquer empresa que insista em prosseguir iniciativas que possam fazer intensificar a competição contra qualquer dos seus produtos nucleares. O sucesso da Microsoft em prejudicar estas empresas no passado e em impedir [o sucesso d]as possibilidades de inovação [de outros], tem o efeito de desencorajar o investimento em tecnologias e negócios que mostrem potencial para a ameaçar. Em consequência, algumas apostas e inovações que poderiam beneficiar verdadeiramente os consumidores nunca acontecem, pelo único motivo de não coincidirem com os interesses da própria Microsoft.”

ligação ao site da dePIXion studios inc., de Mike Keefe (used with permission)Quase 2 anos passaram, entre o momento em que o Departamento de Justiça norte-americano decidiu pôr a Microsoft em tribunal, acusando-a de ser um monópolio e o dia em que o juiz da primeira instância lavrou a sua concordância preliminar com a acusação. Entretanto, a Microsoft, que já era a empresa mais valiosa do mundo, mais do que dobrou o seu valor.

 
 
  Bill Gates  

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